Antes de existirem pontes, existem pessoas.
Cada pessoa chega ao encontro trazendo uma forma particular de perceber, sentir e responder ao mundo. Algumas são intensamente afetadas pelo que acontece; outras preservam maior distância emocional. Algumas transformam rapidamente suas impressões em ação; outras precisam de tempo, segurança ou estímulo. Algumas reagem e seguem adiante; outras carregam por mais tempo aquilo que viveram.
Essas diferenças interferem diretamente na maneira como nos aproximamos, interpretamos gestos, construímos confiança e reagimos quando somos contrariados.
O que uma pessoa percebe como interesse pode ser interpretado por outra como invasão. O silêncio que para alguém representa reflexão pode, para outro, parecer indiferença. A rapidez que transmite disposição para agir também pode ser percebida como ansiedade ou imposição. A cautela que protege uma pessoa pode ser confundida com resistência por outra.
Antes de construir uma ponte, portanto, precisamos reconhecer que o outro talvez não perceba, sinta ou responda ao mundo da mesma maneira que nós.
Como podemos criar uma passagem quando cada pessoa percebe, sente e responde ao mundo de uma maneira diferente?
Uma lente para observar as diferenças
A literatura sobre os oito temperamentos oferece uma lente para observar essas diferenças. Minha principal referência neste estudo é o livro O conhecimento de si mesmo: Os 8 Temperamentos, do Pe. José Antonio Gonzalez, IVE, publicado pela Editora Verbo Encarnado.
A proposta da obra é favorecer o conhecimento das qualidades naturais e adquiridas, reconhecer características positivas e negativas e compreender como o temperamento pode ser educado na formação do caráter.
É importante esclarecer o lugar que essa referência ocupará no Bridge55. Não pretendo utilizar os temperamentos como diagnóstico clínico, verdade definitiva ou mecanismo para prever o comportamento de alguém. Também não quero transformar pessoas em tipos fixos.
Quero utilizá-los como uma linguagem inicial para fazer perguntas melhores sobre nós mesmos e sobre o encontro com o outro.
Três dimensões do temperamento
Nessa abordagem, os oito temperamentos surgem de diferentes combinações de três dimensões: emotividade, atividade e ressonância.
Emotividade
A emotividade está relacionada à intensidade com que uma pessoa é afetada pelos acontecimentos. Diante da mesma palavra, mudança ou conflito, duas pessoas podem experimentar impactos internos muito diferentes.
Na construção de uma ponte, essa diferença importa. Quem sente intensamente pode esperar que o outro reconheça a importância emocional de um acontecimento. Quem é menos impressionável pode não perceber essa expectativa e interpretar a reação do outro como exagero.
Atividade
A atividade diz respeito à disposição para transformar impulsos, necessidades e dificuldades em ação. Algumas pessoas parecem encontrar energia justamente quando surge um obstáculo. Outras podem compreender o problema, sentir profundamente seus efeitos e, ainda assim, ter dificuldade para iniciar um movimento.
Quando não reconhecemos essa diferença, podemos confundir rapidez com compromisso e hesitação com desinteresse. Podemos pressionar quem precisa de outro ritmo ou esperar indefinidamente de quem se orienta pela ação imediata.
Ressonância
A ressonância está relacionada ao tempo de permanência das impressões. Algumas pessoas reagem de maneira imediata e logo voltam ao seu estado anterior. Outras mantêm internamente por mais tempo aquilo que viveram, ligando a experiência presente a lembranças, consequências e significados.
Essa diferença pode produzir desencontros importantes. Para uma pessoa, o conflito terminou quando a conversa acabou. Para outra, a conversa foi apenas o início de um processo interno que ainda precisa de tempo, elaboração e reparação.
Os oito temperamentos
A combinação dessas três dimensões dá origem aos oito temperamentos apresentados pela obra:
- Apaixonado
- Colérico
- Sanguíneo
- Sentimental
- Apático
- Fleumático
- Nervoso
- Amorfo
Cada nome procura reunir tendências relacionadas a como a pessoa é afetada, como age e por quanto tempo uma impressão permanece. Nenhuma dessas combinações representa superioridade humana. Cada uma pode revelar forças, limites e caminhos de amadurecimento.
Também não devemos concluir que conhecer o nome de um temperamento significa conhecer uma pessoa. A história, a educação, o ambiente, os vínculos, as escolhas e as experiências transformam continuamente a maneira como nossas tendências se manifestam.
O encontro entre diferentes
Meu interesse começa justamente onde as classificações costumam terminar: no encontro entre pessoas diferentes.
Como alguém emotivo e imediato conversa com alguém que precisa de tempo para organizar o que sente? Como uma pessoa orientada à ação constrói confiança com alguém que observa antes de se mover? Como alguém que esquece rapidamente uma tensão reconhece que o outro ainda está vivendo seus efeitos?
A dificuldade não nasce apenas da diferença. Ela nasce da tendência de considerar nossa própria forma de perceber e reagir como a forma natural, correta ou evidente.
Quando desconhecemos nosso próprio modo de funcionar, podemos exigir que o outro atravesse toda a distância até nós. Esperamos que se comunique em nossa linguagem, responda em nosso tempo, demonstre confiança da maneira que reconhecemos e se adapte ao caminho que já conhecemos.
Mas uma ponte não começa quando o outro finalmente se torna parecido conosco. Ela começa quando conseguimos reconhecer a distância sem transformá-la imediatamente em ameaça, defeito ou falta de vontade.
Conhecer-se para não impor-se
O conhecimento de si pode ter um papel essencial na construção das pontes. Não apenas porque nos ajuda a reconhecer qualidades e dificuldades, mas porque revela que nossa maneira de estar no mundo é uma entre várias possibilidades.
Conhecer o próprio temperamento pode nos ajudar a perceber quais gestos fazemos espontaneamente, quais respostas esperamos dos outros e quais comportamentos tendemos a interpretar de maneira negativa.
Uma pessoa pode descobrir, por exemplo, que sua objetividade costuma ser percebida como frieza; que sua intensidade pode ocupar todo o espaço da conversa; que sua busca por harmonia a leva a evitar assuntos necessários; ou que sua cautela transmite uma distância que não corresponde ao interesse que sente.
Esse reconhecimento não exige negar quem somos. Ele amplia nossa liberdade para escolher como nos apresentamos no encontro.
Conhecer o próprio temperamento ajuda a perceber que a nossa maneira de construir uma ponte não é a única maneira possível.
Uma matriz para observar as pontes
Ao estudar cada um dos oito temperamentos, quero observar não apenas suas características gerais, mas aquilo que pode favorecer ou dificultar uma passagem em direção ao outro.
- Aproximação: como tende a iniciar uma relação?
- Confiança: o que o faz sentir segurança?
- Distância: o que provoca afastamento?
- Comunicação: como expressa interesse, discordância e emoção?
- Conflito: como reage quando é contrariado?
- Tempo: conecta-se rapidamente ou precisa de continuidade?
- Equívoco: como seu comportamento pode ser interpretado injustamente?
- Travessia: que gesto facilita sua aproximação com alguém diferente?
A ponte começa antes da concordância
Construir uma ponte não significa produzir afinidade instantânea, eliminar conflitos ou fazer com que todos sintam e pensem da mesma maneira.
A ponte pode começar antes da confiança, antes do acordo e até mesmo antes de existir um objetivo comum. Ela começa quando duas pessoas reconhecem que há uma distância entre elas e, ainda assim, encontram uma razão para não interromper o encontro.
Talvez o primeiro gesto seja a curiosidade. Talvez seja a escuta. Talvez seja a disposição para suspender por alguns instantes a interpretação automática que fazemos do comportamento do outro.
O estudo dos temperamentos pode contribuir para esse gesto se for usado com humildade. Ele não nos entrega um mapa completo do outro. Mas pode nos lembrar de que existem outras formas de sentir, agir e guardar as experiências.
Uma ponte não é construída entre categorias. Ela é construída entre pessoas reais — complexas, mutáveis e sempre maiores do que qualquer classificação.
Referência inicial: GONZALEZ, José Antonio, IVE. O conhecimento de si mesmo: Os 8 Temperamentos. Editora Verbo Encarnado.


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